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TOCANTINS EM DESTAQUE

FAO lembra trajetória de ativista rural e quebradeira de coco

Por Assessoria da FAO | Edição: Samuel Lima (UFT) | Publicado: Quarta, 10 de Outubro de 2018, 10h47 | Última atualização em Quarta, 10 de Outubro de 2018, 10h50
A quebradeira de coco Raimunda Gomes da Silva, que é doutora honoris causa pela UFT, é uma das homenageadas pela campanha da FAO de 15 dias de ativismo em prol das mulheres rurais. Imagem: FAO
A quebradeira de coco Raimunda Gomes da Silva, que é doutora honoris causa pela UFT, é uma das homenageadas pela campanha da FAO de 15 dias de ativismo em prol das mulheres rurais. (Imagem: FAO)


A quebradeira de coco Raimunda Gomes da Silva, de 66 anos, nasceu em Novo Jardim, no Maranhão. Lá, foi criada pelos pais agricultores ao lado dos seus dez irmãos. Casou-se aos 18. Quatorze anos depois da união, decidiu abandonar o marido e criar sozinha os seis filhos, trabalhando como lavradora.

Em 1991, Raimunda fundou a Associação Regional das Mulheres Trabalhadoras Rurais do Bico do Papagaio (ASMUBIP). Ela e suas companheiras de luta começaram a promover encontros para discutir seus direitos. Primeiro, nos municípios mais próximos e, em seguida, nos estados vizinhos. Em 1992, criaram o Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), presente no Pará, Tocantins, Piauí e Maranhão.

Cerca de 300 mil mulheres vivem da coleta do coco babaçu, nativo da região. Da amêndoa do fruto, extraem o óleo vegetal, com o qual cozinham e produzem sabão. Da casca, fazem lenha. Da palha da árvore, cestos. Nada se perde. As agricultoras só utilizam para si o que sobra da produção. O trabalho de coleta e a quebra do coco são tarefas difíceis.

Aos 20 anos, Raimunda aprendeu a assinar o nome e tornou-se porta voz de 400 mil trabalhadoras rurais extrativistas, em defesa do meio ambiente e dos direitos das mulheres. Ao longo de sua trajetória, foi responsável pela Secretaria da Mulher Trabalhadora Rural Extrativista, do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS).

Honoris Causa

Raimunda e Edgar Morin receberam títulos de doutor honoris causa em 2009 (Foto: Arquivo/Sucom)Raimunda e Edgar Morin receberam títulos de doutor honoris causa em 2009 (Foto: Arquivo/Sucom)Por sua atuação em prol das mulheres da região do Bico do Papagaio, a quebradeira de coco recebeu o título de doutora Honoris Causa da Universidade Federal do Tocantins (em 2009, junto com o renomado antropólogo, filósofo e sociólogo Edgar Morin) e prêmios como o Diploma Mulher-Cidadã Guilhermina Ribeira da Silva, da Assembleia Legislativa do Tocantins, e o Diploma Bertha Lutz, do Senado Federal, concedido a mulheres que contribuíram para a igualdade de gênero no Brasil.

Em 2005, Raimunda integrou a lista mundial das mil mulheres que concorreram ao prêmio Nobel da Paz.

Hoje, a trabalhadora rural, já aposentada, está em seu segundo casamento, com o também aposentado Antônio Cipriano. Ela adotou o sétimo filho, Moisés, órfão de um líder sindical assassinado na década de 1990. Devido à idade avançada e a problemas de saúde e na vista, Raimunda está longe do ativismo, mas garante que há outras mulheres à frente das causas nos estados.

A ex-quebradeira de coco já quase não sai mais de sua casa e conta que é difícil o contato com as demais quebradeiras. “Eu só vejo elas quando vêm aqui me visitar. Eu queria que elas tivessem mais acesso à saúde, aos estudos, tivessem uma moradia melhor, melhor qualidade de vida porque isso ainda não é visto como profissão e dificulta na hora de aposentar”, avalia.

Raimunda também é autora de várias poesias e músicas, em que denuncia a injustiça imposta ao povo do campo. A sua história virou a trama central do vídeo-documentário “Raimunda, a quebradeira”, do cineasta Marcelo Silva.

“O fato de ganhar esses prêmios todos não mudou em nada na minha vida, eu continuo da mesma forma, vivendo do mesmo jeito. O reconhecimento só me fez ter ainda mais responsabilidade. A luta continua. Eu não quero morrer matada, quero morrer na cama, sou feita do pó da terra, e é pra lá que voltarei.”

15 dias pela autonomia das mulheres rurais

Os papéis desempenhados pelas mulheres rurais são tão numerosos quanto suas lutas e vitórias. O que não faltam são histórias de vida inspiradoras. No entanto, elas ainda não têm o reconhecimento merecido. Sofrem com o preconceito e a desigualdade de gênero.

Ainda há um longo caminho para a igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres no campo. A fim de mostrar que a equidade de gênero e o respeito são valores necessários cotidianamente, a ONU decretou 2018 como o Ano da Mulher Rural.

A partir de 1º de outubro, serão publicadas no portal da FAO  uma série de reportagens que fazem parte da Campanha Regional pela Plena Autonomia das Mulheres Rurais e Indígenas da América Latina e do Caribe – 2018. Serão 15 dias de ativismo em prol das trabalhadoras rurais que, de acordo com o censo demográfico mais recente, são responsáveis pela renda de 42,2% das famílias do campo no Brasil.

Para acessar todas as matérias da campanha, clique aqui.

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